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12 de junho de 2014

VAI TER COPA




Claro! E por um motivo simples: é um evento que envolve interesses de bilhões de dólares.

Essa é a décima primeira Copa que eu assisto. E é fato, contra ou a favor, nunca vi uma Copa do Mundo com um clima tão estranho, ambivalente. O povo dividido, poucos espaços decorados e uma avalanche de notícias ruins.
Sempre foi comum o pessimismo em relação ao time. Mas, dessa vez, a seleção era a menor das preocupações.  

Depois de tanto que se falou, se fala e vai se falar, quero registrar alguns pontos, porque se há uma coisa que me irrita é essa manobra que a mídia faz para repetir tanto uma informação até que ela seja transformada em verdade.

1. A Copa é um evento privado, não é um evento público. Um grupo de pessoas ganha muito dinheiro com ele. Criar essa confusão entre público e privado faz parte de uma grande estratégia de criar facilidades e mobilizar essa coisa idiota chamada patriotismo.

2. Quando o governo brasileiro e o congresso assumiram compromissos tinham tempo suficiente para realizar todas as obrigações assumidas. E o grande mote para fazer deste um plano vencedor (aqui, entenda-se assumir compromissos e recursos públicos) era o bendito “legado”.

3. Vieram as manifestações e as feridas começaram a ser expostas. Promessas e compromissos começaram a ser desfeitos da maneira mais irresponsável e desavergonhada possível. E o tal legado mostrou-se um engodo.

4. O povo adora futebol e quer a Copa (exceto uma minoria). O que todos (ou a maioria) detestam é a mentira e a irresponsabilidade dos que prometeram e mais uma vez não fizeram. Esse é o ponto. Nossa imagem, mais uma vez, corre o risco de ser maculada como um país que não deve ser levado a sério.

5. Na reta final, toda a mídia recebeu o recado do departamento comercial: pessimismo não vende cerveja. Por favor, vamos mudar o foco e começara tratar positivamente do evento.  

E a Copa vai acontecer e dois legados restarão:

O primeiro é o intenso debate que emergiu, que certamente trará consequências, inclusive sobre as eleições que acontecem em seguida.

O segundo é ver que existe aqui um potencial de gentileza, de acolhimento, de alegria do povo, que quando não são prejudicados e contaminados pela ganância e pela corrupção, indicam o ambiente para grandes realizações.

Perdemos a Copa de fazer um trabalho magnífico. Na bola, que vença o melhor.

8 de junho de 2014

ETERNIDADE


Dizem os cosmólogos que conhecemos apenas 10% de tudo. 10% de um multiverso tão grande quanto o nosso é muita coisa, mas 90% é nove vezes mais. Ou seja, não sabemos muito mais que sabemos. Daí, é importante sempre deixar a possibilidade de que qualquer teoria, por mais absurda que seja, esteja correta e seja comprovada daqui a uns mil anos. E depois, mais mil anos adiante, seja desmentida.

Eu gosto de acreditar que existe vida após a morte e que os espíritos continuam conectados a este mundo dos vivos. Gosto de acreditar, mas não acho que seja verdade.

Sendo assim, pelo benefício da dúvida, faço planos para minha vida pós morte. Eu não sei o que eu vou ser quando crescer, mas já tenho um desejo do que vou ser depois que morrer: quero ser assombração.
Ora, eu sou comediante, gosto do que faço e quero fazer isso uma parte da eternidade. E, de tudo que sei sobre as possibilidades na vida eterna, ser assombração me parece a mais divertida.

Está nos meus planos puxar o pé de crianças e esconder debaixo da cama deles depois que a luz apaga. Eles gritam pela mãe e eu simplesmente desapareço.
Também quero aparecer no reflexo do espelho de ex-esposas e sumir deixando elas confusas sobre o significado daquela visão.
Outra atividade que me parece pândega é fazer barulho nos teatros velhos. Bater portas, janelas, soltar frases sem sentido, subir e descer varas.  
Imagine aparecer num terreiro e fazer previsões absurdas sobre a vida de umas pessoas? Ou possuir um pastor que está tentando exorcizar um crente?


Minha eternidade não tem nada de descanso. Quero continuar na farra.

23 de maio de 2014

DEUS ME LIVRE



Eu não tenho implicância com as religiões. São elas que têm implicância com a humanidade e sua irrefreável jornada evolutiva ascendente.
Qual o problema de vocês e do seu minúsculo deus?

Criminosos terroristas adoradores de Allah que em seu nome sequestraram duzentas adolescentes na Nigéria porque cometeram o crime de frequentar uma escola. E vão vendê-las como escravas sexuais.

O Papa vai a Jerusalém para realizar a façanha – acreditem – de rezar um Pai Nosso com seus irmãos ortodoxos, coisa que não fazem há mil anos. Adoram o mesmo Deus, clamam pelo mesmo Jesus, o Cristo, mas não conseguem se dar as mãos e rezar uma oração juntos?

No Congresso brasileiro, a bancada evangélica – que representa a região mais sombria da nossa civilização - recusava aprovar um projeto de lei que criminaliza a violência doméstica, sob o falacioso argumento de que “o estado não deve se meter em questões familiares”. Pais e mães podem bater o quanto quiserem em seus filhos porque essa é uma questão íntima.

São apenas três fatos recentes, ligados a três crenças ou grupos religiosos distintos, mas que mostram o que elas têm em comum: se constituírem um poder supremo, acima da lei, em nome de um ente que só existe em estado de subjetividade.

Precisamos livrar os seres humanos de padres, papas, pastores e outros que se arvoram ao direito de executar as leis de um deus que ninguém nunca viu. Para que um dia, livres das correntes das religiões eles possam encontrar um Deus, que seja só bondade e compaixão.

Que Deus nos livre das religiões. 

16 de maio de 2014

ME INCLUA FORA





Agora é oficial. Não sou mais flamenguista.

Eu adoro futebol (vôlei, basquete, tênis, curling) e vou continuar assistindo boas partidas.
Ser flamenguista é uma doença da qual quero me curar. E isso é uma sugestão que dou aos botafoguenses, atleticanos, vascaínos ou o que quer que você seja.

O “ismo” é um transtorno psicossocial que produz comportamentos indesejáveis.
Transforma o prazer e a alegria do esporte em ódio ao adversário. Pelas cores do clube nos tornamos inimigos mortais, fanáticos, imbecis, fundamentalistas. Nos descabelamos e sofremos por causa de um bando de espertos – dirigentes, empresários, jogadores - que transformaram o jogo em negócio.
Você acha que algum jogador ou empresário está preocupado com a sua alegria ou a qualidade do espetáculo?
Como quase tudo no mundo de hoje, é só dinheiro sendo movimentado numa embalagem qualquer. E nós somos a audiência que eles precisam e o ingresso que faz a máquina funcionar.

Do mesmo jeito não vou torcer pelo Brasil na Copa. Vou torcer pelo bom futebol e não acho que hoje ele seja praticado pelos brasileiros.
Orgulho de ser brasileiro? Que porra é essa? Não tenho orgulho sequer de ser humano!

E mais, quero que a empresa privada e os governos que (des)organizaram essa bagunça que chamam de “A Copa das Copas” se fodam. Sequer conseguiram cumprir os mínimos compromissos contratados. É uma vergonha!
E não podemos mais uma vez tirar a lição de que no fim das contas deu tudo certo porque fomos campeões. Não podemos continuar a ser esse país bagunçado, improvisado, irresponsável. Temos que crescer e que seja com a dor da derrota.

Saudade do Zico e da geral do Maracanã. Saudade da camisa sem logomarcas. Saudade do mundo quando havia paixão.

29 de abril de 2014

#EUNÃOSOUMACACO


Ninguém que está lendo este texto é um macaco. Os negros não são macacos. Nem os brancos.

Não podemos assumir a ofensa que vai muito além do preconceito pela cor da pele.
Quando se chama um negro de macaco (seja jogando-lhe uma banana ou imitando ruídos de um primata selvagem), o que se pretende é tirar dele a humanidade. É “rebaixá-lo” à condição de animal e a partir daí ter as condições de tratá-lo como tal, aprisiona-lo, abatê-lo, colocá-lo na condição de supostamente inferior. Os colonizadores usavam esse discurso para dominar e exterminar populações e nações inteiras.

Essa discussão do racismo tem sido tratada com muita emoção e pouca inteligência pela mídia. O racismo é apenas uma das facetas do preconceito e da discriminação que opera da mesma maneira quando segrega por religião, nacionalidade, sexo, bandeira política e qualquer outro traço que defina uma identidade.

O ser humano é bem pior do que gostamos de imaginar. A história da humanidade é muito mais uma história de conflitos por diferenças que tentativas de comunhão. O ser humano é estúpido. E o racismo é apenas uma dessas janelas onde podemos ver quem somos.

Tratar o racismo isoladamente é jogar pra torcida, é ignorância ou marketing.
Comer a banana do racismo é entrar na jaula.


Digo não à banana. Digo não ao racismo. Digo não a toda forma de discriminação, a tudo que cria fronteiras entre pessoas e justifica violência contra quem quer que seja.

3 de março de 2014

AND THE WINNER IS...


“Gravidade” e “12 Anos de Escravidão” ganharam estatuetas, mas quem ganhou NO Oscar foi a Samsung.
Numa obra prima do marketing, a apresentadora Ellen Degeneres fez um selfie cheio de megaestrelas e pediu que retuitassem. Curioso, entrei no Tweeter e um minuto depois lá estava a foto. Em menos de uma hora se tornou a foto mais retuitada de todos os tempos, beirando aos oitocentos mil RTs.

Aí aconteceu a grande jogada. “Espontaneamente” (dá pra acreditar que aconteça alguma coisa espontânea na internet onde estejam envolvidos celebridades e marcas?), começaram a comentar e a criticar o uso do aparelho da marca Samsung no próprio Tweeter. Bem, eu não vi a logo no aparelho e não sou capaz de distinguir uma marca de outra apenas olhando o dispositivo. Eu não sabia que era um Samsung, até ver os RTs.

Os internautas deram esse presente e a Samsung agradece.

2 de março de 2014

A DIFÍCIL VERDADE


O texto a seguir não é recomendável a quem tem intolerância à lactose e ao livre exercício da opinião.    

A Igreja Católica tem mostrado grande esforço para ajustar seu calendário de existência a uma maior taxa de secularidade. Mesmo acreditando que a maior parte das ações são peças de marketing é possível supor que em algumas gerações teremos uma igreja mais humilde, verdadeira e santa, mais parecida com o seu Criador.
Dentro dessa agenda de cortes na carne - que inclui a confissão de pecados e crimes dos mais variados tipos e tamanhos – um me parece essencial para que a fé dos cristãos seja um ato também de inteligência e não “um mergulho cego de um edifício em chamas” *: a Igreja deve falar a verdade sobre a Bíblia, o seu livro sagrado.

Alguns pontos me parecem indiscutíveis, mesmo para o mais conservador religioso:

1. A Bíblia não é um livro, mas um conjunto de livros. Entre o primeiro texto e o último há um intervalo de uns três a quatro mil anos. A maioria dos livros não tem um autor definido. Em geral surgiram como tradições orais que depois foram gravadas em pedras, papiros e pergaminhos.

2. Deus – se existe - não escreve livros. Deus pode ter inspirado os autores (e isso é uma questão de fé plausível). Mas, a considerar a quantidade de contradições, conflitos e bizarrices, difícil aceitar que uma divindade esteja por trás dessas obras.  

3. A Bíblia não é um livro de história ou de ciência, mas de mensagens religiosas, dirigidas a um grupo bem específico, diante de situações históricas bem próprias. Portanto não pode ser usada como um manual de verdades, leis e regras universais. O que era bom para uma tribo de criadores de cabras que morava no meio do deserto há três mil anos não vale necessariamente para um cidadão urbano contemporâneo.

4. A Bíblia foi falada, escrita, traduzida, editada, revista, censurada, adequada, montada e remontada dezenas de vezes. Não é possível garantir que os textos que conhecemos hoje são idênticos aos originais. Apenas a título de exemplo, a expressão na profecia de Isaías “uma moça conceberá” foi traduzida como “uma virgem conceberá”, equívoco ou intenção, que gerou um dos dogmas do cristianismo.

5. A Bíblia só começou a ser montada quando o cristianismo se tornou religião legalizada no império Romano de Constantino. Porém, até o período Reforma (século XVI), era crime punível com a fogueira ter um exemplar do livro sagrado. O acesso aos textos só era permitido às autoridades eclesiásticas.

São verdades simples que, a meu ver, não mudam a relação do crente com Deus, mas criam um ambiente de verdade nessa relação. E, como está escrito, “é a verdade que vos libertará”.

Eu respeitaria mais a Igreja por isso.


* Quando participava de movimentos de igreja ouvi essa definição de fé: um prédio em chamas e uma pessoa chega à janela, desesperada. Lá em baixo alguém grita que pule. A pessoa diz, “mas não vejo nada!”. Isso é a fé, completava o padre, a certeza de que, mesmo nada vendo, será amparado.

26 de janeiro de 2014

O QUE DISSE?!


Os governos não sabem lidar com a opinião.
Opinião, pra eles, é crítica e quem critica é adversário e adversário é inimigo. E inimigo tem que ser eliminado, neutralizado.
Nos corredores dos palácios se diz: “Quem não está conosco está contra”.

Quem viveu os anos 70 e redondezas, conviveu ou enfrentou as mazelas da censura. Era lei, oficial, uma instituição organizada e visível. Havia regras.
Com o advento da nova democracia brasileira se quer fazer crer que não há mais censura, porém (não apenas acho, mas sinto na pele), ela apenas se adequou a uma forma mais flexível de operação.

Especialmente tendo à mão as novas ferramentas tecnológicas, toda opinião é rastreada e controlada. Por “controlada” entendo uma estratégia de controle de danos.
Num sistema que se inspira no estalinismo, na Gestapo, no Big Brother orweliano e em coisas assim, empresas especializadas monitoram tudo que se diz nas redes e mídias, montando a seguinte equação:

O que se diz > quem diz > qual o alcance (quantitativo) >
qual a repercussão (qualitativo) > consequências.

No item “consequências” discute-se formas de ação para reverter o que for considerado negativo, que vão desde enfrentar com argumentos até sufocar a pessoa considerada inimiga. Para essa, as portas se fecham, os recursos somem, os “amigos” desaparecem e ela é deixada à míngua até se tornar um ninguém.

Se você “fala mal” de um governo e não sente consequências saiba que isso só acontece porque para esse governo você não é considerado “alguém”.

As empresas privadas operam da mesma maneira, com a diferença que algumas atingiram a maturidade de transformar críticas em melhorias do seus produtos e serviços.


Quer sobreviver no mundo? Cale a boca e aprenda a fingir um belo sorriso.      

25 de dezembro de 2013

POR UMA NOVA CRENÇA



Não quero discutir a existência de um deus, seja ele Thor, Osíris, Jeová ou qualquer outro. Essa diversidade de nomes e formas me parece a eterna mania do ser humano de se referir à sua própria incapacidade de se explicar. Mudam as eras, os lugares, mas permanece a angústia.

Quero apenas colocar a questão numa outra perspectiva.

Aqui onde vivo (Minas, Brasil, América, Ocidente) a maioria esmagadora (e põe esmagadora nisso) professa a fé em Cristo, filho homem de Deus.
Não é novidade que essa história tem seus fundamentos numa região e num tempo distantes de nós, quando uma tribo de nômades fez seus primeiros pactos com Javé.
Os eventos mais antigos dessa crença datam de cerca de quatro mil anos atrás (ou dois mil antes de Cristo), quando sequer havia escrita. As tradições foram transmitidas de boca a boca, à luz das fogueiras nas solitárias noites no meio do deserto, quando o patriarca contava essas histórias aos seus.

Naquele tempo – e até recentemente – acreditava-se que o céu era uma abóbada, uma redoma que cobria um prato sustentado por uma tartaruga gigante. Tudo que existia teria sido criado por alguma entidade superior que também controlava a vida e a morte segundo seus interesses e normas.
Nossos ancestrais desenvolveram mecanismos de relacionamento com essas divindades que supunham a repetição de frases e fórmulas, oferendas e sacrifícios – inclusive humanos. Tudo para conseguir benefícios, curas, fortuna, aplacar sua fúria e eventualmente uma vingança contra o inimigo infiel.

Justificável aceitar que gente tão desprovida de informação e ciência tenha se dedicado a tais práticas religiosas. O que esperar de quem só conheceu na vida um pouco de areia?

E aqui chegamos ao ponto.
Difícil é entender que quatro mil anos depois, com tudo que sabemos sobre o universo, a matéria, a vida e o ser humano, tenhamos nossa dimensão de religiosidade ainda presa a crenças primitivas como aquelas.   

Ainda repetimos frases mágicas, acendemos velas, fazemos oferendas (comumente em dinheiro) e sacrifícios, na intenção de controlar as vontades divinas e conseguir delas algum benefício.
Acreditamos que uma água tem poder, comemos o corpo e bebemos o sangue do nosso Deus confiando que assim ele estará em nós.

E o mais grave (e o que realmente me incomoda), desprezamos nossa capacidade de perguntar sobre a autenticidade disso tudo, porque esse é o maior pecado de todos, a dúvida. Por ele, perdemos o paraíso.


Não quero discutir a existência de Deus, mas apenas faço a seguinte provocação: você se lembra quando foi e por que começou a acreditar nEle?

9 de dezembro de 2013

ENCRUZILHADA



Não queremos violência nos estádios, mas no campo os jogadores frequentemente exibem desleais demonstrações de brutalidade.

Queremos que o público seja educado nas arquibancadas, mas no campo os jogadores passam noventa minutos tentando enganar o árbitro e daí tirar alguma vantagem.

Queremos a cultura da paz mas entupimos nossas crianças com modelos de comportamento violento, em lutas de MMA, em filmes e jogos onde a diversão são tiros, socos, facadas e jorros de sangue.

Queremos que nossos jovens tenham valores decentes e civilizados, mas a música que eles ouvem estimula a futilidade.

Queremos um mundo em que as pessoas se comuniquem e as entupimos de equipamentos que as isolam.

Queremos acabar com a corrupção, mas continuamos a eleger os piores, e justificamos nossas alianças quando é conveniente.

Não queremos mais mortes nas ruas por culpa de motoristas embriagados, mas bombardeamos o imaginário de todos com toneladas de propagandas de cerveja.

Não queremos excesso de velocidade, mas fazemos carros que andam a 200 por hora.

A verdade não é o que falamos, mas o que fazemos.


Temos que decidir que mundo queremos.

6 de dezembro de 2013

UBUNTU


Mandela não era humano.

Humanos segregam, discriminam, separam.
Humanos são brancos, negros, pardos, índios, cristãos, muçulmanos, flamenguistas, vascaínos, atleticanos, brasileiros, portugueses, Pereiras, Teixeiras, homens, mulheres, homossexuais, heterossexuais, jovens e velhos.
Mais difícil que romper o apartheid entre branco e negros, foi unir tribos de negros e descendentes de brancos.
Poucas frases incríveis e um sorriso marcante.


Ao fim de décadas de cativeiro, negou a vingança e o rancor.

Mandela não era humano. Mas, quem sabe um dia os humanos possam ser mandelas?

4 de novembro de 2013

QUEM TEM UM BAGO É REI


Juiz de Fora, onde estão sua bolas? Seus culhões, cadê?

Se eu tivesse que definir em uma frase o problema de Juiz de Fora eu diria: faltam culhões.
Culhões - ou colhões - são bagos, bolas, testículos (ovários, por que não?). A expressão – toleravelmente machista – significa falta de coragem ou de competência. E é esse, basicamente, o problema dessa cidade.
Questões importantes se arrastam por décadas, empurradas com a barriga, passadas de uma gestão à outra, repetindo o vício cruel de “deixar a herança maldita ao próximo” ou “negar o legado do antecessor para não lhe dar crédito”.

E não é justo botar na conta desse ou daquele prefeito. Já é um traço cultural de nossas lideranças, da nossa mídia e da nossa gente.
Quem tem aqui um pequeno quintal se arvora ao título de “Duque do Cantinho do Barranco do Alto do Bairro de Lourdes”. E por falta de culhões, se fecha no seu pequeníssimo domínio e morre sufocado no próprio medo. Medo de interagir, medo de mudar, medo de modernizar, medo de compartilhar.

Apenas num rápido levantamento da dívida que a cidade tem com a história, relacionamos:

. As obras do Paschoal Carlos Magno, que começaram em 1982. Época em que – salvo engano - foi feita a última reforma do Parque Halfeld, hoje uma ferida no nosso coração.  

. A linha férrea que rasga a dinâmica da cidade. Com a eterna desculpa da falta de dinheiro para tirar esses benditos trilhos ficamos fazendo remendos e gambiarras para minorar o impacto que eles provocam.

. A poluição do Rio Paraibuna, tema tão antigo e recorrente quanto a seca do nordeste. Faz um triste retrato de um esgoto a céu aberto de norte a sul.

. O sistema de transporte coletivo cujos ônibus tem o mesmo leiaute há 30 anos, tão ultrapassados quanto o seu modo de gestão. O sistema troncalizado é um exemplo típico do que falo: iniciado numa gestão e destruído na seguinte.

. O aeroporto da Serrinha, dimensionado para uma cidade pequena. Para resolver, criamos o Aeroporto Internacional de Goianá / Rio Novo, que não é uma solução, senão outro problema.

. As obras da BR-440 já completam 10 anos num trecho de poucos quilômetros, muitos equívocos e suspeitas de malversação de verbas públicas. E por aí vai.



Esses são momentos gloriosos da nossa “apequenação” histórica. Nós que temos na nossa genética, a coragem e a grandeza – entre outros - de Bernardo Mascarenhas, de Antônio Dias, de Henrique Halfeld, de Murilo Mendes, de Alfredo Ferreira Lage, de João Carriço, de Arthur Arcuri, de Constança Valadares, de gente que tinha culhões.

30 de outubro de 2013

PROCUREI

Caros Gil, Caetano, Roberto e os outros.

Estou procurando entender o que vocês acham sobre essa questão das biografias não autorizadas. Vocês rejeitam o rótulo de censores mas querem ter controle prévio do que vai ser escrito e publicado. 

Como assim?

Biografia é, antes de tudo, um trabalho jornalístico. Procurem saber, é exatamente isso que se chama “censura prévia”!

Nós sempre nos interessamos pela obra de vocês, sempre compramos ingressos e discos dos seus trabalhos e sempre acompanhamos suas vidas, porque é assim a relação do artista com seu público.
Nunca deve ter incomodado a vocês o quanto essa curiosidade gulosa os fez ricos e famosos. E ela faz parte do pacote de admiração.

Repetindo o que vem sendo dito, a lei já garante proteção contra calúnia e outros tipos de inverdade. Se o problema é o ganho com os direitos, duvido que a venda dos livros vá mudar o saldo de suas contas bancárias.

Da minha parte, tento neutralizar essa mistificação de celebridades. Não me interessa a vida de ninguém porque é famoso. Me interessam boas ideias de onde quer que venham. Gosto de alguma coisa do que vocês fizeram como músicos e não há nada em suas vidas que possa mudar isso, porque gosto da obra. Vocês, nem conheço.


Relaxem nesse assunto e tentem não influenciar tantos nesse movimento retrógrado de controlar a informação.

25 de outubro de 2013

101 BEAGLES


O episódio da “libertação” dos beagles me lembrou aquele clássico da Disney que já em 1961 levantava a questão do uso de animais para atender necessidades humanas. Claro que quando se trata de sacrificar filhotinhos de dálmatas para fazer casacos de pele fica fácil tomar partido e identificar onde está a maldade.

Mas e quando os lindinhos são usados para produzir cosméticos, vacinas e outros fármacos? Aí a plateia se divide, entre os que justificam os meios pelos fins e os que respeitam a vida dos bichinhos.

Nós, humanos, além de inteligentes somos hipócritas – o que só é possível quando se é inteligente. Em primeiro lugar, o que mais fazemos em nossa existência é ceifar vidas. Em segundo lugar, escrevemos num livro que somos superiores às outras espécies e daí deduzimos nosso direito em decidir sobre a vida deles.

Temos que dar comida pra toda essa gente e aí fazemos o que todos no planeta fazem (independente da espécie): matamos. E se pensarmos em como são tratados frangos, porcos e bois, no confinamento e no abate, vamos perder o apetite e o sono. Os que optaram pelos vegetais devem achar que planta não sofre. Melhor pra eles.

Eu vivo bem com isso porque acho que faz parte da natureza: eu como um porco e se der mole ele me come.

Porém, quando tratamos de pesquisas científicas aí a coisa complica. E, por tudo que li e vi, por dois motivos: primeiro, porque não há certeza científica que o teste feito in vitro e noutra espécie possa servir de modelo para humanos in vivo; segundo, porque essa é uma prática que vem perdendo apoio no mundo todo. Testar cosméticos e material de limpeza em animais, por exemplo, é prática condenada num número crescente de países. Na União Europeia a legislação é tão severa que, no começo deste ano, foi proibida até a comercialização de produtos testados em animais, ainda que importados”.

Alguém questionou: “Você deixaria de usar um remédio ou um shampoo se soubesse que ele foi testado em cães?”. Eu abomino a escravidão, mas não vou demolir as pirâmides. A humanidade encontrou tecnologia para construir monumentos e tem que avançar no campo das experiências com animais.

Eu defendo o uso de humanos voluntários remunerados.
Diz a Dra Preci Grohman, estudiosa do assunto, que “pesquisas já são feitas com voluntários, podem ser feitas em criminosos que desejem reduzir suas penas ou ainda em culturas de células humanas. Se forem necessárias outras técnicas, os seres humanos devem ser competentes o suficiente para desenvolvê-las. Um exemplo de desperdício na ciência é o descarte diário de milhares de cordões umbilicais, ricas fontes de células. A manutenção até os dias de hoje de experimentos em animais visa puramente interesses financeiros, e já deveria ter sido abolida há décadas”. (Dra. Preci Grohman)

Quando o Instituto Royal usou beagles, nossa sistema de hipocrisia foi testado ao extremo. Usar ratos, a gente aguenta. Mas beagles, são pets. Aí, vestiram a fantasia da Cruela e nosso imaginário explodiu em ódio e desejo de vingança.
O pessoal do instituto chamou de “terroristas” os ativistas.
A jornalista Alessandra Siedschlag (do site Salvacao) levanta algumas informações que invertem essa titularidade:

“Em 2012 o Instituto Royal recebeu CINCO MILHÕES DE REAIS de dinheiro público sem estar cadastrado no CONCEA. Tinha licença para ser um CANIL. Apenas foi cadastrado no CONCEA no mês passado, mas já fazia experimentações com cães. Enquanto era um canil, o “Instituto Royal” produziu 2,8 toneladas de cadáveres de animais”.


Quem é o terrorista?