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3 de julho de 2016

SEM GRAÇA


É importante que casos de violência contra a mulher e outros crimes de ódio ocupem o noticiário, causem desconforto e provoquem polêmica.
É importante apontar cada crime, abuso, deslize, por menor e mais inocente que aparentemente seja, como quem cata pulgas num cão. Tudo isso faz parte de uma complexa, antiga e intrincada rede de dominação, que resiste em morrer.

É o que denominamos genericamente de "cultura do estupro", ou "cultura da intolerância, ou do ódio à diferença", que, de tão acostumados estamos com suas manifestações que engolimos besouros como fossem passas.

O universo de assuntos ligado ao tema é imenso e hoje quero focar na responsabilidade que a comédia tem na construção de um ambiente de preconceito com consequências, às vezes, nada divertidas.

O comediante desfruta o poder do microfone, do palco e da piada. Ela lhe garante um habeas corpus preventivo contra qualquer acusação de excesso. Ele pode falar o que quiser, mas tem que pagar a aposta do risco. Piadas machucam.

Mulheres, gays, negros, não se escondam, não se deixem intimidar. Quando se sentirem agredidas e agredidos, revidem. A vaia é um direito legítimo da plateia e esse cancro precisa ser exposto. Uma pessoa que se retira do teatro no meio do show é um soco no estômago do artista, pode acreditar.

Os tempos são outros em movimento constante. Os humoristas precisam mostrar que têm inteligência suficiente para produzir textos de qualidade sem abusar do riso fácil baseado na humilhação alheia. Esse é um grande desafio. Se ele não consegue, saiba que seus dias no mercado estão contados.

5 de outubro de 2011

A LÍNGUA DA COBRA




A cobra tem a língua fina porque se fosse grossa, mordia nela e morria envenenada.
Isso serve como metáfora pra se ter cuidado com o que fala.

Rafinha Bastos foi afastado da bancada do CQC por conta do que chama de piada e outros chamam de grosseria.

E eu pergunto no melhor mineirês, uai?! (Que aqui pode ser traduzido por why?)?!

Ele sempre fez piadas assim. Encheu teatros com esse estilo. Ganhou audiência na TV com um programa que cultiva pegadinhas, humilhação e o constrangimento aos "entrevistados". Daí conquistou milhões de seguidores no twitter e virou celebridade internacional via NYT, que o escolheu como "a pessoa mais influente no Twitter".

Emissora, patrocinadores, mídia e público deram corda, inflaram o ego do rapaz e agora formam coro pra reprovar uma piada escrota? Ele só fez e continua fazendo o que sempre pediram e esperaram dele.

Todo mundo quer ver o circo pegar fogo, mas quem paga o pato é o palhaço.

Agora todos voltam pro lado de cá da linha do bom senso. Marcelo Tas simplesmente declarou que isso é um problema entre Rafinha e a Band. Marco Luque, Claro!, também se excluiu. E o CQC, ao que parece, vai entregar a mão para não perder o braço.

O episódio vai ter consequências.
Vai aprofundar a discussão sobre os limites do humor e sobre essa história de grosseria X politicamente correto.
Vai dar a oportunidade ao Rafinha de repensar sua carreira e a maneira como trata seus textos.
Vai reposicionar audiência, mídia e patrocinadores.
E vai deixar chamuscada a imagem de um programa que queria ser irreverente, provocativo mas tomou caldo na própria onda que gerou.