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1 de setembro de 2013

GRANDES PALAVRAS


Todo comediante sabe que muita gente tem rejeição ao palavrão. Mesmo assim eu insisto em defender seu uso. Considero o palavrão uma peça do vocabulário como outra qualquer, tendo seu uso aplicável no momento apropriado, como outro vocábulo qualquer.
Mas para a maioria não é assim. Os palavrões pertencem a uma categoria maldita. É mal educado dizê-los, é ofensivo ouvi-los.

Alguma vez você já pensou por quê?

Entre outros possíveis motivos, me parece que se trata de uma rejeição indireta ao sexo uma vez que todos os palavrões fazem referência a órgãos e ações sexuais: cu, caralho, buceta, filho da puta e por aí vai.
Do mesmo modo, órgãos sexuais (e periféricos) e ações sexuais são igualmente reprimidos. Também é ofensivo e desagradável falar sobre e mostrar imagens dos mesmos.

Por entender então que sexo e palavrão fazem parte do mesmo pacote de reprimíveis eu vou tratar como uma coisa só.

Estamos diante de um paradoxo absurdo. O sexo é talvez a pulsão mais importante para os seres vivos que se reproduzem através dele. É o que garante a existência da espécie. E as genitálias são ainda o instrumento mais eficiente e comum para operar esse sistema reprodutivo. E o prazer no sexo, me parece ter sido um dispositivo que a evolução inseriu para motivar os seres à reprodução. E apesar disso, tenta-se criar um mundo onde as palavras e as imagens são assexuadas?

Entre outros motivos, essa repressão tem origem na nossa cultura religiosa que por séculos nos convenceu que sexo é sujo e pecaminoso.

Serão necessários outros séculos para encontrar um caminho saudável para lidar com essa questão. Comece agora, na sua cabeça, no seu micro universo. As crianças do século XXV lhe serão gratas.

28 de abril de 2011

AQUI, Ó!


Outro dia uma pessoa me pediu a indicação de uma peça que "não tivesse palavrões ou coisas obscenas" porque queria levar a família.
Eu respondi que na minha opinião "obsceno é uma criança passando fome ou fumando crack", isso sim é indecente.

Sociedade hipócrita essa em que vivemos que tolera a corrupção e todas as consequências devastadoras que dela advêm, mas não consegue conviver com expressões chulas e piadas picantes.

Outro dado importante é que somos um país que cultiva o humor e a piada. Nossos ambientes de intimidade são ricos em troça, apelidos, sátiras, causos debochados e muitas vezes com insinuações sexuais. Mas quando essa faceta cultural vai a público, a sociedade reage com repulsa. O velho cenário do patriarca que preserva o respeito à mesa diante da família, mas se refestela com a criada no canto da senzala.

Por conta disso vivemos um ambiente de censura e autocensura do humor. O comediante pensa duas vezes antes de se referir a alguém ou a alguma instituição e evita palavrões que possam ferir a casta sensibilidade de nossas famílias.

Eu defendo o uso do palavrão pelo simples motivo que é uma peça do vocabulário como outra qualquer, que tem seu momento próprio, adequado e insubstituível.

E defendo a libertação da piada desse controle medieval do politicamente correto. Não há ambiente melhor para o debate de ideias que o humor. A piada, antes de mais nada, tem que cumprir sua função de fazer rir. Tem que ser boa e bem contada.

No momento, os integrantes da Cia de Comédia Os Melhores do Mundo (que depois do TQ é a melhor Cia de humor do país) estão com suas contas bloqueadas por decisão da justiça. Em toda cidade que se apresentam fazem piada com alguma faculdade local. Mas a gloriosa Universidade Tiradentes de Aracaju se sentiu ofendida e conseguiu um juiz que cometesse tal agressão.

Com isso conseguiu mostrar que é a universidade pode ser um centro de obscurantismo. E que a justiça serve de instrumento para sustentar a prática inquisitória.

Pois que venham guardiões da moral e dos bons costumes! Bloqueiem nossas contas, cerceiem nosso direito de expressão, calem nossa boca, mas a piada vai sobreviver e continuará sendo contada. E quanto mais forte for seu ataque covarde, mais graça ela vai ter.