Você me encontra também no Facebook e no Twitter

1 de janeiro de 2009

STAND BY




NADA ACABA, NADA COMEÇA

Essa é uma lei importante do universo.

A maneira de contar o tempo em ciclos nos faz acreditar na ilusão de que um ano acaba e outro começa. Parece uma discussão idiota - e talvez seja - mas esse calendário cria a dificuldade de comprimir nossos projetos num período dentro dos doze meses (e não em doze meses).

A bobagem é acreditar que o ano seguinte - só por ter outra numeração - será diferente. Na verdade, a tendência é que ele seja igual, porque os ciclos se repetem.

Se não, veja história que se segue, baseada em fatos reais.

Denise é uma mulher de 37 anos, esposa infeliz, mãe de três filhos chatos, revendedora de uma marca de produtos de beleza, nessa ordem de autodefinição. Na noite de reveillon (de 2007 para 2008) ela estava com a família e uns amigos num salão de festas alugado pelo grupo.

Exausta (trabalhou até às nove), meio amarga (de saco cheio do marido, dos filhos e do trabalho), carente (não fazia sexo há oito meses e amor há onze anos), muito carente (por medo e incompetência, não tinha amante) ela foi direto ao assunto: uma talagada de rum, outra de Martini e alguns copos de cerveja.

O grupo de pagode dava o tom cantando coisas do tipo "você nunca me amou", "eu vou partir pra outra" ou "meu coração está ferido até hoje". Bêbada, ela cantava alto, com o copo na mão e o olhar lânguido para o marido que disfarçava a vergonha do mico.

Foi chegando meia noite, o DJ colocou aquela música da TV Globo - a mesma há séculos - os fogos começaram a cintilar e o espírito etílico controlava o raciocínio - metaforicamente falando - dela. Esse conjunto de estímulos produziu na criatura de 1,60m e 92kg (esqueci de mencionar) uma reação inesperada. Bebida, fogos e música (e mais uma meia dúzia de outros fatores) deram a ela a sensação de ter atingido um grau de iluminação espiritual. Ao invés de trocar abraços e votos ela correu para o canto, pegou caneta e papel e pôs-se a anotar suas resoluções para o novo ano.

"Vou entrar para uma academia, malhar e emagrecer", foi o primeiro. "Vou arrumar outro emprego e fazer uma faculdade". "Vou fazer uma viagem pro nordeste, seja lá onde isso fique". Idéias como "reformar a cozinha", "botar um aparelho nos dentes do João Paulo" ou "ser mais paciente com o Ronaldo" chegavam aos borbotões e eram rechaçadas com violência.

Ele havia empacado na quarta resolução quando o desagradável marido chega sorrateiramente por trás e lhe toma a folha. "Deixa eu ver" (sic!). Ela tenta recuperar o documento, mas é tarde. "Academia, emagrecer, faculdade, viagem pro nordeste... você é egoísta hein? Olha só os meus votos pro ano novo".

Ela pega a lista dele, que parecia a declaração universal dos direitos humanos: "Quero a paz na faixa de Gaze (sic! Ele achava que o nome "Faixa de Gaze" se devia ao fato de haverem muitos feridos); menos fome na África; mais empregos no Brasil; pelo fim da crise" e ia por aí a fora. E não faltou "o aparelho nos dentes do João Paulo".

Ela se sentiu humilhada, envergonhada e decepcionada consigo mesma. Uma das maiores crueldades que um cônjuge faz ao outro é que ele acredite que é pior do que na verdade é.

Mesmo assim, ela dobrou a sua lista e guardou no bolso.

Ia dar início ao seu projeto em janeiro, mas eram férias das crianças. Em fevereiro começavam as aulas e em março ela ganhou uma promoção no trabalho. Em junho ela prometeu que depois das férias de meio de ano era o momento. Em agosto ela estava na fila do caixa do supermercado e ouviu alguém dizer: "Nossa, como esse ano passou rápido. Daqui a pouco é Natal". Ela sentiu um frio na espinha e percebeu que não havia mais tempo.

Respirou fundo e garantiu que no ano seguinte ela mudaria sua vida.

Moral da história: não deixe para ser feliz amanhã.

ps - João Paulo ganhou um aparelho para os dentes.


PURO CHANEL



Entre as boas velharias que ando vendo está o incrível "Bonequinha de Luxo" ("Breakfast at Tiffany's", de 1961), dirigido por Blake Edwards e com roteiro baseado em livro de Truman Capote.
O diretor fez outras boas coisas, como "A Pantera Cor de Rosa" (com Peter Sellers, claro) e um filme que eu gosto que chama "O Homem que Amava as Mulheres", com o canastrão Burt Reynolds.

É um filme de um tempo onde havia elegância.